Linguística e Poética:

a vogal “u” no Poema Sujo de Ferreira Gullar

Autores/as

  • Augusto Stevanin UFRGS

Resumen

Este artigo propõe uma leitura do Poema Sujo, de Ferreira Gullar, a partir da noção de função poética da linguagem tal como formulou Roman Jakobson. Entendida como a operação linguística em que o pendor recai sobre a própria construção da mensagem, o efeito do fenômeno da função poética da linguagem se manifesta no jogo entre entre som e sentido, produzindo efeitos inusitados. A análise recai sobre a recorrência da vogal “u” nos versos iniciais do poema de Gullar, especialmente no percurso que conduz ao verso “azul teu cu”. Sustenta-se que o efeito poético não reside apenas na presença de um termo considerado vulgar, mas na forma como a sonoridade da vogal “u”, ora tônica, ora átona, organiza a cadeia sintagmática até que uma quebra de padrão — uma expectativa frustrada — desestabilize a escuta do leitor. O estudo mobiliza os conceitos jakobsonianos de seleção e combinação para demonstrar como a construção sonora do poema engendra um ritmo que prepara o choque final. A esse fenômeno Jakobson atribui o “efeito irresistível” da linguagem poética: a emergência do inesperado a partir do trabalho com as palavras de uma mensagem verbal. Ainda que se recorra brevemente à noção de arbitrariedade linguística, a ênfase recai sobre o modo como a linguagem, em sua dimensão poética, revela sua capacidade de significar com base no jogo formal entre os elementos que a compõem.

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Citas

GULLAR, Ferreira. Autobiografia poética e outros textos. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

GULLAR, Ferreira. Toda Poesia. Companhia das letras: São Paulo, 2021.

JAKOBSON, Roman. Linguística e Poética. In: Linguística e comunicação. São Paulo: Editora Cultrix, 1976.

SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. São Paulo: Editora Cultrix, 2012.

Publicado

2026-06-08