Rousseau e outras feras: gênero, virtude e domesticidade no século XVIII em diálogo com Villeneuve e Leprince Beaumont

Autores/as

DOI:

https://doi.org/10.31977/grirfi.v26i2.5787

Palabras clave:

Rousseau; Leprince de Beaumont; Feminilidade; Iluminismo; Domesticidade; Gênero.

Resumen

O artigo investiga a construção de um ideal de feminilidade doméstica no século XVIII a partir da análise comparada entre a versão de La Bela et la Bête publicada por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (1756) e os escritos de Jean-Jacques Rousseau, especialmente a Carta a d’Alembert (1758) e o Émile (1762). Partindo da constatação de que a versão de Beaumont reformula e simplifica a narrativa anterior de Gabrielle-Suzanne de Villeneuve (1740), o texto argumenta que o modelo de mulher ideal – recatada, cuidadora, virtuosa e ligada ao espaço doméstico – já se encontra consolidado no conto pedagógico antes mesmo de ser sistematizado pela filosofia de Rousseau. Embora Rousseau tenha se tornado a voz mais influente na normatização da feminilidade no Iluminismo, sua obra dialoga com um imaginário já em circulação, no qual o lar se configura como espaço formador de cidadãos virtuosos e a mulher como agente moral indireta da república. O artigo defende que essa transição não deve ser atribuída exclusivamente à retórica rousseauniana, mas compreendida como fruto de uma rede mais ampla de discursos e práticas pedagógicas. A noção de “mulher pública paradoxal”, central, mas confinada, emerge como chave de leitura para compreender os efeitos duradouros dessa normatividade de gênero que, sob o signo da virtude, reorganiza papéis, afetos e a própria gramática da cidadania moderna.

Descargas

Los datos de descargas todavía no están disponibles.

Biografía del autor/a

Luciano da Silva Facanha, Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

Doutor(a) em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), São Paulo – SP, Brasil. Professor(a) da  Universidade Federal do Maranhão (UFMA), São Luís – MA. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - Nível C.

Barbara Rodrigues Barbosa, Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

Doutor(a) em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo – SP, Brasil. Pós-Doutorando(a) em Cultura e Sociedade no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), São Luís – MA . Bolsista FAPEMA.

Citas

ANÔNIMO. De l’éducation physique et morale des enfans des deux sexes. Paris: Nyon l’aîné, 1785.

ARTIGAS-MENANT, Geneviève. Lumières clandestines. Les papiers de Thomas Pichon. Paris: Honoré Champion, 2001.

ARTIGAS-MENANT, Geneviève. Les Lumières de Marie Leprince de Beaumont. Nouvelles données biographiques. Dix-huitième Siècle, v. 36, n. 1, p. 291-301, 2004.

BERCHTOLD, Jacques. La “Lettre à d’Alembert” dans l’œuvre de Rousseau. In: Rousseau, politique et esthétique: sur la Lettre à d’Alembert. p. 29-53. Org. Blaise Bachofen et Bruno Bernardi. Lyon: ENS Édition, 2011.

BIANCARDI, Élisa (ed.). La jeune Américaine et les contes marins (La Belle et la Bête) [suivi de] Magasin des enfants (La Belle et la Bête). Paris: Honoré Champion, 2008.

BLOOM, Allan (trad.). Politics and the Arts: Letter to M. d’Alembert on the Theatre. Ithaca: Cornell University Press, 1960.

BLUM, Carole. Strength in Numbers: Population, Reproduction, and Power in Eighteenth-Century France. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2002.

GOLDSMITH, Elizabeth C.; GOODMAN, Dena (orgs.). Going Public: Women and Publishing in Early Modern France. Ithaca: Cornell University Press, 1995.

GOLDSTEIN, Jan. The Post-Revolutionary Self: Politics and Psyche in France, 1750-1850. Cambridge: Harvard University Press, 2008.

GOODMAN, Dena. The Republic of Letters: A Cultural History of the French Enlightenment. Ithaca: Cornell University Press, 1994.

GRANDIÈRE, Marcel. L’Idéal pédagogique en France au dix-huitième siècle. Oxford: Voltaire Foundation, 1998.

GUTWIRTH, Madelyn. The Twilight of the Goddesses: Women and Representation in the French Revolutionary Era. New Brunswick: Rutgers University Press, 1992.

HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública: Investigação quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Trad. Flávio R. Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

JONES, Jennifer M. Repackaging Rousseau: Femininity and Fashion in Old Regime France. French Historical Studies, v. 18, n. 4, p. 939-967, 1994.

JONES, Jennifer M. Sexing La Mode: Gender, Fashion and Commercial Culture in Old Regime France. New York: Berg, 2004.

KERBER, Peter Bjorn. Read to improve themselves in XVIII century Paris. In: BREMER

DAVID, Charissa (org.). Paris: Life and Luxury in the Eighteenth Century. Chicago: Jean-Paul Getty Museum, 2011.

LACERDA, Rodrigo. Apresentação. In: LACERDA, Rodrigo (org.). A Bela e a Fera e outros contos. Rio de Janeiro: Zahar, 2016. (Clássicos Zahar – bolso de luxo).

MAZA, Sarah. Private Lives and Public Affairs: The Causes Célèbres of Prerevolutionary France. Berkeley: University of California Press, 1993.

MAZA, Sarah. The Myth of the French Bourgeoisie: An Essay on the Social Imaginary 1750-1850. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2003.

MISTACCO, Vicki. Les Femmes et la tradition littéraire: Anthologie du Moyen Âge à nos jours. Première partie: XIIe-XVIIIe siècles. New Haven: Yale University Press, 2006.

POPIEL, Jennifer J. Rousseau’s Daughters: Domesticity, Education, and Autonomy in Modern France. Durham: University of New Hampshire Press, 2008.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Émile ou de l’éducation. Texte établi et annoté par Bernard Gagnebin et Marcel Raymond. Bibliothèque de la Pléiade. Paris: Gallimard, 1969. t. IV.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Lettre à M. d’Alembert sur les spectacles. Texte établi et annoté par Bernard Gagnebin et Marcel Raymond. Bibliothèque de la Pléiade. Paris: Gallimard, 1995. t. V.

STEINBRÜGGE, Lieselotte. The Moral Sex: Woman’s Nature in the French Enlightenment. New York: Oxford University Press, 1995.

TURNER, Rebecca. From Salonnière to Mère: Femininity in Eighteenth-Century France. 2009. Tese (Doutorado em História) – University of North Carolina.

VENTURA, Rosa. Um pouco além do espelho de Bela: leitura, repertório e formação no Magasin des Enfants. Literartes, n. 11, p. 279–290, 2019.

VENTURA, Susana; LESLIE, Cassia; ASSE, Roberta. Na companhia de Bela: contos de fadas por autoras dos séculos XVII e XVIII. Seleção, organização e comentários de Susana Ventura, Cassia Leslie; ilustrações e projeto gráfico de Roberta Asse; tradução de Maria Valéria Rezende, Maikon Augusto Delgado, Susana Ventura e Caroline Rodovalho. Londrina: Florear Livros, 2019.

VENTURA, Susana Ramos. Um pouco além do espelho de Bela. Literartes, v. 1, n. 12, p. 275-293, 2020.

VILLENEUVE, Gabrielle-Suzanne; BEAUMONT, Jeanne-Marie Leprince; BIANCARDI, Élisa. La jeune Américaine et les contes marins; La Belle et la Bête; Magasin des enfants. Paris: Honoré Champion, 2008.

VILLENEUVE, Gabrielle-Suzanne; BEAUMONT, Jeanne-Marie Leprince. A Bela e a Fera. Trad. André Telles; ilust. Walter Crane et al.; apres. Rodrigo Lacerda. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

ZIPES, Jack. Why fairy tales stick? The evolution and relevance of a genre. New York/London: Routledge, 2006.

Publicado

2026-06-28

Cómo citar

FACANHA, Luciano da Silva; BARBOSA, Barbara Rodrigues. Rousseau e outras feras: gênero, virtude e domesticidade no século XVIII em diálogo com Villeneuve e Leprince Beaumont. Griot : Revista de Filosofia, [S. l.], v. 26, n. 2, p. 227–239, 2026. DOI: 10.31977/grirfi.v26i2.5787. Disponível em: https://periodicos.ufrb.edu.br/index.php/griot/article/view/5787. Acesso em: 12 jul. 2026.

Número

Sección

artículos