Chamada de artigos para Dossiês Temáticos
CHAMADA DE ARTIGOS
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2026.2 Violência política e marcadores sociais da diferença
O cenário político global contemporâneo tem sido marcado por uma preocupante escalada da violência, que se manifesta de forma cada vez mais explícita e multifacetada. Este fenômeno não apenas fragiliza as instituições democráticas, mas também aprofunda as desigualdades sociais, especialmente quando analisado sob a ótica dos marcadores sociais da diferença.
A violência política (VP), compreendida como qualquer ação que visa limitar os direitos políticos de indivíduos ou grupos, transcende as agressões físicas, psicológica, econômicas, abrangendo também formas de violência simbólica, como discursos de ódio e a disseminação de desinformação. Tais manifestações se tornam particularmente perversas ao se cruzarem com questões de raça, gênero, classe social e orientação sexual, criando camadas de opressão que impactam desproporcionalmente grupos já vulnerabilizados. Conforme apontado por Almeida et al. (2018), a intersecção desses fatores resulta em experiências políticas distintas e desiguais, nas quais, por exemplo, uma mulher negra e pobre enfrenta desafios significativamente diferentes de outros segmentos sociais.
Nesse contexto, as reflexões de pensadores como Hannah Arendt sobre os regimes totalitários e Walter Benjamin sobre o “estado de exceção” adquirem renovada relevância. O avanço de movimentos autoritários e a mercantilização dos direitos criam um terreno fértil para a normalização de práticas autoritárias dentro de estruturas democráticas. A onda conservadora atual, impulsionada pela crise do projeto neoliberal, promove uma agenda que alia a militarização da política a ideais de virilidade, marginalizando sistematicamente grupos já em situação de vulnerabilidade, com especial atenção aos marcadores de gênero, sexualidade e raça. Este processo culmina na erosão gradual das bases democráticas.
Paralelamente, a banalização da violência como instrumento político sinaliza o enfraquecimento do monopólio legítimo da força pelo Estado (Weber). A análise de Sérgio Adorno (2001) sobre a sociologia da violência demonstra como a ineficácia estatal em garantir segurança abre espaço para atores paralelos (milícias, tráfico, crime organizado) disputarem o controle territorial e simbólico. A complexidade se acentua com as conexões entre setores religiosos e organizações criminosas (Paes Manso, 2020), onde narrativas morais são instrumentalizadas para justificar a violência política.
Dessa forma, a presente chamada busca contribuições que abordem a violência política (VP) em interseção com os marcadores sociais da diferença, analisando a teia intrincada entre diferentes formas de violência política e as categorias de raça, gênero, classe, sexualidade, entre outras questões como preconceito e misoginia. Também nos interessam estudos que articulam a violência política com processos recentes de redemocratização, sobretudo, latinos, de modo que temos altos índices regionais de discriminação. Também nos interessam olhar para o movimento crescente da VP na internet/mídias sociais. A internet deu outra definição para comportamento político, política e informação para a contemporaneidade, não diferente para VP ao agregar desinformação, ataque, ofensa, ameaça, censura, invasão.
Interessa, assim, a este dossiê, estudos da área de Ciência Política, Sociologia, Antropologia, Direito que trabalhem questões metodológicas, estudos de caso, entrevistas, questionários, pesquisa de campo, etc. Outros temas de interesse incluem a ascensão da extrema direita e sua relação com o aumento da violência no campo político. Também são bem-vindas discussões sobre as novas nuances do autoritarismo no século XXI e suas implicações para a democracia.
Referências:
ADORNO, Sergio. Monopólio estatal da violência na sociedade brasileira contemporânea. In: MICELI, S. (Org.). O que ler na ciência social brasileira (1970-2002). São Paulo: Anpocs, 2001. v. 4, p. 167-207.
ADORNO, S.; DIAS, C. N. Monopólio estatal da violência. In: LIMA, R. S.; RATTON, J. L.; AZEVEDO, R. G. (Orgs.). Crime, polícia e justiça no Brasil. São Paulo: Contexto, 2014. p. 187-198.
ADORNO, Theodor. Estudos sobre a personalidade autoritária. Ed. Unesp, 2ed. São Paulo, 2025.
ALMEIDA, Heloisa Buarque de et al. Introdução: Marcadores sociais das diferenças. In: SAGGESE, Gustavo Santa Roza et al. (Orgs.). Marcadores sociais da diferença: gênero, sexualidade, raça e classe em perspectiva antropológica. São Paulo: Gramma, 2018. p. 15-28.
ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Ed. Cia das letras, São Paulo, 2013
BENJAMIN, Walter. Teses sobre o conceito de História. Alameda editorial, São Paulo, 2020.
PAES MANSO, Bruno. A república das milícias: Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. Ed. Todavia, São Paulo, 2020.
WEBER, Max. Ciência e Política: Duas Vocações. Ed. Cultrix, São Paulo, 2003.
Prazo de envio: 31 de outubro de 2026
Organizadores: Sara da Silva Freitas (UFRB); Janine Targino da Silva (UERJ); Leonardo José Ostronoff (UFSC)
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2027.1 Tendências do imaginário social no século XXI frente à conjuntura de crises políticas e climáticas.
A teoria do imaginário social tem sido relevante para um número crescente de temas. A ampliação da teoria do imaginário para campos variados das ciências sociais ilustra a sua aplicabilidade e relevância para oferecer um diagnóstico do tempo presente em um contexto de múltiplas crises, sobretudo políticas e ambientais. Nesse sentido, esta chamada busca acolher trabalhos que aprofundem os sentidos do conceito de imaginário a partir de diferentes áreas, bem como analisar os problemas de cada uma dessas áreas a partir de concepções específicas do imaginário.
A relevância da proposta do dossiê, portanto, deriva da multiplicidade de usos e críticas da teoria do imaginário, o que aponta para a sua atualidade. Inicialmente, a teoria do imaginário estava vinculada a uma discussão exclusiva à teoria social e à psicanálise. Atualmente, a teoria do imaginário social penetra as discussões da sociologia teórica (Domingues, 1995, 1999; Joas, 2002), da política e dos movimentos sociais (Browne, Diehl, 2019; Domingues, 2024; Knöbl, 2019; Singer, 2020), dos estudos urbanos, da relação com a natureza e das crises climáticas (Adams, 2003, 2012; Brode-Roger, 2020; Levy, Spicer, 2013; Luke, 2015; Soper, 2010; Wright et al., 2013), o que demonstra a força interdisciplinar da temática. Trata-se de uma teoria fortemente ancorada na tradição sociológica, dada a existência de concepções análogas ao conceito de imaginário (como em Marx, Durkheim, Mead e Parsons), o que permite o desenvolvimento de análise teóricas comparativas e, consequentemente, avanços no tema. A problemática do imaginário associa-se a outras discussões dentro da teoria crítica contemporânea, como a questão da ideologia, do reconhecimento, ou mesmo da hegemonia; também conduz a análises ligadas ao problema da criatividade e da racionalidade, dois dos mais relevantes problemas sociológicos contemporâneos.
Neste sentido, a presente chamada convida a trabalhos de natureza tanto teórica, como propostas empíricas orientadas pela teoria do imaginário social ou por seus diálogos com outros conceitos correlatos. Alguns caminhos de investigação poderão ser: (i) concepções teóricas do conceito de imaginário, críticas sistemáticas e conceitos correlatos; (ii) configurações contemporâneas no imaginário político; (iii) movimentos sociais e crítica ao imaginário instituído; (iv) imaginários urbanos e produção do espaço; (v) imaginários em crise (climáticas e democráticas). Serão também aceitas investigações mediante o uso de categorias de análise como a de raça, gênero, classe, relação entre sociedade e natureza e/ou a interação entre humanos e animais.
Prazo de envio: 28 de fevereiro de 2027
Organizadores: Bruna Mariz Bataglia Ferreira (NETSAL-IESP-UERJ); Marianne Silva Rocha (NETSAL-IESP-UERJ); Daniel Ferreira (IFCS-UFRJ).
Os artigos deverão ser submetidos pela plataforma da revista. Diretrizes para Autores disponíveis em: https://periodicos.ufrb.edu.br/index.php/novos-olhares-sociais/about/submissions.